Educação Matemática: Uma Visão Centenária

Para Young (1906), apontado como um dos precursores da atual Matemática, um bom professor necessita muito mais de ferramentas e habilidades do que tão somente da compreensão da Matemática. Isto significa que ele deve ir além do saber disciplinar.

Atualmente, os PCN’s argumentam a ênfase na resolução de problemas. Esta era uma das premissas de Young em seu livro O Ensino da Matemática, publicado em 1906.

Entre outras premissas, aparecem os vários caminhos para a comunicação e o raciocínio matemático, a conexão da Matemática com os vários campos de atuação do conhecimento, o uso de tecnologias para ajudar a aprendizagem dos estudantes de Matemática.

Para Young, a “aritmética não é enfadonha quando é utilizada com outra conexão. O interesse será maior se os dados forem obtidos pela informação e observação dos próprios alunos”.

O uso de problemas que interessam e aguçam a curiosidade deve motivar os alunos a desenvolverem estratégias importantes para a sua resolução, de modo que tais estratégias possam ser utilizadas em situações diárias e não somente nas aulas de Matemática ou nos laboratórios.

Estas estratégias devem ser muito bem aprendidas através da solução de problemas matemáticos durante todo o período de aprendizado dos estudantes.

Young estudou minuciosamente as limitações do ensino da Matemática em uma sala de aula tradicional, onde se usa decorar métodos com grupos de estudantes com habilidade homogênea. Ele sentiu que o ensino é pior quando feito através da exposição pelo professor. Assim, enfatizou a necessidade de grupos heterogênios, trabalhos em grupo, métodos individuais para p aprendizado da Matemática, laboratório para experiências, ou ainda uma combinação de tudo isso. Ele estava convencido de que a utilização de todos esses métodos seria muito benéfica para os alunos.

Em sua concepção, o trabalho em grupo permite criar uma condição de igualdade entre os participantes, estimula o cultivo da confiança mútua, favorece o aprendizado na troca de conhecimentos, gera maior produção se comparado ao trabalho individual, principalmente entre alunos com mais dificuldades; faz do professor um participante nos diferentes grupos e não aquele que apenas transmite conhecimento ao grupo.

Além do ensino por meio de várias técnicas, Young propunha também que os estudantes fossem avaliados por vários métodos, sendo o último o exame escrito e de memorização. Ele sentia que os alunos deveriam ser capazes de demonstrar o seu conhecimento oralmente, através de representações visuais, pelo uso de métodos e projetos, do trabalho em grupo, e por muitos outros meios não tradicionais. Young estava muito além do seu tempo.

Young defendia que as aulas de Matemática ocorressem em conjunto com outras matérias similares, e não como uma disciplina isolada dentro da categoria Matemática. Acreditava que a Matemática deveria ser ensinada em conexão com outras disciplinas para promover a compreensão dos fenômenos naturais que nos cercam (vestígios de interdisciplinaridade?). Esta crença foi o ímpeto principal de Young pelo ensino através de laboratório. Acreditava também que a Geometria, a Álgebra, etc., deveriam ser ensinadas em todo o ciclo de formação básica (fundamental e médio) e não como disciplinas distintas.

O método de laboratório possui uma “insistente demanda para uma correlação mais unida de temas próprios da Matemática ou da Matemática com a Física, por exemplo”.

Para entender numerosas aplicações da Matemática, os alunos precisam usar seus conhecimentos na natureza e no seu próprio meio ambiente, através da experiência. Isto permite aos alunos explorar com seus colegas as muitas relações entre a Matemática e nossos arredores físicos.

Trabalhar em laboratório: aqui também Young estava muito mais avançado do que no seu tempo quando postulou o axioma pedagógico:

“O aluno deve ser mantido interessado em seu trabalho e este trabalho deveria ser apresentado de maneira interessante, a mais interessante.”

Vinte ou trinta anos antes da teoria do desenvolvimento cognitivo de Piaget, Young estava convencido de que o material necessário para ser apresentado de uma maneira que o aluno entendesse, deveria usar a terminologia do professor (importância da adequação do material didático na aprendizagem).

Young acreditava que o foco de toda a instrução matemática deveria servir a capacidade e a necessidade dos alunos, e não apenas servir ao currículo ou à preparação aos exames (Ensino subserviente aos vestibulares).

Ele reconhecia que as crianças não são pequenos adultos, assim, a sua capacidade cognitiva é diferente. Uma vez que a utilidade mata a sede de conhecimento de um adulto, o interesse da criança está no instinto para resolver uma tarefa e resolvê-la com sucesso.

Young deu nome a esse instinto como “instinto charada” e denominou-o como fundamental para o interesse da criança. Dessa forma, o papel mais importante do professor é ”conduzir o aluno ao desejo de trabalhar o problema e elevar o interesse; preparar o caminho para que ele seja bem sucedido, e o interesse será mantido”.

Finalmente, Young propunha que toda tecnologia disponível deveria ser acessível aos estudantes, e que cada sala de aula ou laboratório deveria possuir um mínimo necessário de instrumentos e material para que os alunos pesquisassem e aprendessem através de experimentações.

A tecnologia disponível estaria colaborando para o despertar do pensamento, independente de cada estudantes.

Como se pode observar, resolução de problemas, comunicação, aprendizagem cooperativa, aprendizagem significativa, uso de tecnologias no ensino-aprendizagem, temas tão atuais, têm suas raízes no passado. Cem anos se passaram e a discussão permanece desafiando alunos, professores, autoridades em Educação e a sociedade sobre que rumos tomar no ensino-aprendizagem da Matemática e como tornar possível o sonho de Young.

Young, Jacob Willian Albert (1865 – 1948) foi um pioneiro no campo educacional pedagógico.

Seu livro The Teaching of Mathematics, cujo original foi publicado em 1906, colocou-o como uma autoridade proeminente no então nascente campo da Educação Matemática.

Texto traduzido e adaptado pelo Professor Mestre Edison da Matta, extraído do periódico Fólium de Matemática - UNIMESP

Referências

[1] Stein, Sharyn L. Young’s Vision, In: The Mathematics Teacher, V. 86, April 1993.

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